Estamos unificando o nosso Clube do Livro com a Loja da Editora Expressão Popular!
Já está cadastrado na nossa loja? Faça o seu login ou registre-se, em seguida atualize os dados de sua assinatura.

FAZER LOGIN OU SE REGISTRAR
  

LIVRO DO MÊS outubro/2019
Recordações do escrivão Isaías Caminha

Sinopse

Esse primeiro romance de Lima Barreto, embora publicado em 1909, recoloca com vitalidade crítica o tema ainda atual do racismo no Brasil. O autor, militante anarquista e socialista, trava o combate a esse tipo de ideologia de dominação por meio da análise madura de um escrivão sobre os incontáveis mecanismos cotidianos de controle social que impediram seu ingresso na universidade e nas destacadas atividades intelectuais. As memórias de Isaías estão marcadas pelo tom ácido da crítica sobre a demarcação social dos espaços de dominação, como nos regimes de apartheid, e pelo tom sincero no relato das dores físicas e psicológicas: "(...) sendo verdadeiras as suas observações, a sentença geral que tirava, não estava em nós, na nossa carne e no nosso sangue, mas fora de nós, na sociedade que nos cercava, as causas de tão feios fins de tão belos começos".

Lima Barreto avança na batalha ideológica, com Recordações do escrivão Isaías Caminha, ao demonstrar como o racismo está instalado nas instituições brasileiras, seja na família, na Igreja, na escola, nas Forças Armadas, no parlamento, na justiça, na burocracia estatal, nas empresas, e, especialmente na mídia. Na redação de O Globo, Lima Barreto retira com maestria e grande humor o véu da ideologia da dominação ao descrever as atividades rotineiras dos "grandes gênios" da imprensa burguesa e os lucrativos negócios da produção e venda de notícias: "Era a imprensa, a Onipotente Imprensa, quarto poder fora da Constituição".

Com prefácio de Irenísia Torres de Oliveira (professora do departamento de Literatura e pós-graduação em História da UFC, e vice-presidente da ADUFC) e posfácio de Adelaide Gonçalves (professora titular do departamento de história da UFC), Recordações do escrivão Isaías Caminha é contextualizado no debate atual sobre justiça e reparação social nas universidades brasileiras, como obra que na atualidade possa servir aos/às estudantes e professores/as, para a reflexão sobre a necessidade da defesa da educação pública, das cotas educacionais, do ensino da história afro-brasileira e da criação da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), entre outras medidas.

Trecho do livro

"Eu me lembrei de escrever estas recordações, há dois anos, quando, um dia, por acaso, agarrei um fascículo de uma revista nacional, esquecida sobre o sofá de minha sala humilde, pelo promotor público da comarca. Nela um dos seus colaboradores fazia multiplicadas considerações desfavoráveis à natureza da inteligência das pessoas do meu nascimento, notando a sua brilhante pujança nas primeiras idades, desmentida mais tarde, na madureza, com a fraqueza dos produtos, quando os havia, ou em regra geral, pela ausência deles.

Li-o a primeira vez com ódio, tive desejos de rasgar as páginas e escrever algumas verrinas contra o autor. Considerei melhor e vi que verrinas nada adiantam, não destroem; se, acaso, conseguem afugentar, magoar o adversário, os argumentos deste ficam vivos, de pé.

O melhor, pensei, seria opor argumentos a argumentos, pois se uns não destruíssem os outros, ficariam ambos face a face, à mão de adeptos de um e de outro partido.

Com essa reflexão, que me animo a chamar de bom conselho e excelente inteligência, vieram-me recordações de minha vida, de toda ela, do meu nascimento, infância, puerícia e mocidade.

Mentalmente comparei os meus extraordinários inícios nos mistérios das letras e das ciências e os prognósticos dos meus professores de então, com este meu triste e bastardo fim de escrivão de coletoria de uma localidade esquecida. Por instantes, dei razão ao autor do escrito.

Cheio de melancolia, daquela melancolia nativa que me ensombra nas horas de alegria e mais me deprime nas de desalento, acendi nervosamente um cigarro, fui à janela, olhei um momento o rio a correr e me pus a analisar detidamente os fatos de meu passado, que me acabavam de passar pelos olhos.

Verifiquei até o curso secundário, as minhas manifestações, quaisquer, de inteligência e trabalho, de desejos e ambições, tinham sido recebidas, senão com aplauso ou aprovação, ao menos como coisa justa e do meu direito; e que daí em diante, dês que me dispus a tomar na vida o lugar que me parecia ser de meu dever ocupar, não sei que hostilidade encontrei, não sei que estúpida má vontade veio ao meu encontro, que me fui abatendo, decaindo de mim mesmo, sentindo fugir-me toda aquela soma de ideias e crenças que me alentaram na minha adolescência e puerícia.

Cri-me fora de minha sociedade, fora do agrupamento a que tacitamente eu concedia alguma coisa e que em troca me dava também alguma coisa.

Não sei bem o que cri; mas achei tão cerrado o cipoal, tão intrincada a trama contra a qual me fui debater, que a representação da minha personalidade na minha consciência se fez outra, ou antes, esfacelou-se a que tinha construído. Fiquei como um grande paquete moderno cujos tubos da caldeira se houvessem rompido e deixado fugir o vapor que movia suas máquinas.

E foram tantos os casos dos quais essa minha conclusão ressaltava, que resolvi narrar trechos de minha vida, sem reservas nem perífrases, para de algum modo mostrar ao tal autor do artigo que, sendo verdadeiras as suas observações, a sentença geral que tirava, não estava em nós, na nossa carne e no nosso sangue, mas fora de nós, na sociedade que nos cercava, as causas de tão feios fins de tão belos começos".

 Sobre o autor

Lima Barreto (1881 – 1922) escritor negro, anarquista e socialista nasceu em 13 de maio no Rio de Janeiro e acompanhou na infância a abolição da escravatura, com suas promessas, e na juventude a vivência da dura realidade da classe trabalhadora brasileira, em especial dos afro-descendentes. Filho de pai branco e mãe negra, o fluminense Afonso Henriques de Lima Barreto começou a ter seus textos publicados na imprensa no início dos anos 1900. Nasceu e viveu no subúrbio – cenário que aguçou sua visão e senso crítico; e permeou sua obra, repleta de personagens prenhes de humanidade. Um escritor que avançou na forma e no conteúdo do realismo e do pré-modernismo guiado pelo profundo sentido humanista: "Porque o fim da Civilização não é a guerra, é a paz, e a concórdia entre os homens de diferentes raças e de diferentes partes do planeta". (Lima Barreto, 1919)
Título

Aguarde

Livraria e Editora Expressão Popular

Receba nossos informativos!